DIÁRIO DE UM CONSTRUTOR DE ITAJAÍ DO ANO DE 1899
Traduzido do Alemão
Exemplar de diário de Guilherme Müller, existente no Arquivo Histórico de Blumenau.
1 de janeiro — Com Deus entramos no Ano Novo! Prost Neujahr nós nos desejamos e cada um espera do ano que começa, que suas esperanças e desejos se realizem. Também eu e nós todos esperamos do novo ano, que fiquemos poupados de calamidades, tal como nos aconteceram no fim do ano passado. A respeito dos meus negócios não tenho motivo de queixa, até posso dizer que o ano de 1898 foi próspero.
O que se refere aos meus negócios o ano novo não promete o mesmo que o ano passado, mas também estou satisfeito com menos. Novas construções e conclusões de negócios ainda não estão em expectativa, só resta terminar as duas construções já começadas de M. Cunha [1] e Palumbo [2]. Mas ainda estou em melhor posição como por exemplo, Maluche, que absolutamente não tem serviço em vista, e no último tempo quando eu quase não dei conta do serviço, estava sem serviço. Um feliz estado e uma grande satisfação é que eu mesmo sem serviço nenhum posso viver muito bem dos meus aluguéis e juros, mal contado são 100 Mil réis de aluguel e o mesmo em juros que eu ganho e com 200 Mil réis nós pode mos viver brilhantemente. Com grande participação foi inaugurado o Jornal “Progresso”. [3]
Na sociedade Caça e Tiro [4] tinha baile e o nosso Willi [5] participou. Como se diz o baile foi pouco freqüentado. De tarde tinha tiro ao alvo e a nossa banda tocou. Depois também chegou a banda do Guarani,[6] que foi convidada para tocar algumas peças o que ela também fez. Tinha bastante gente reunida lá que dançou e se divertiu. Willi ganhou o décimo primeiro prêmio do tiro ao alvo.
3 de janeiro — Para agradar Willi e como eu tinha tempo nós fomos jogar boIão às 4 horas e nos divertimos bastante. Um dos ladrões do Donato [7] fugiu. M. Cunha [8] não quer aceitar o orçamento da cozinha dele por causa do preço, eu já baixei 50 Mil réis, mas mais também não.
Esta noite fez muito calor e os pernilongos musicaram a valer. Em cima um pouco excitado por tomar uns copos de cerveja quando jogamos bolão, tudo junto fez o sono irrequieto e pouco satisfatório.
A minha intenção foi viajar amanhã para Blumenau, mas o vapor Blumenau já vai hoje. Lá no Konder, [9] onde eu tinha de receber 70 Mil réis a conta não estava pronta, porque eu preciso pelo menos de 600 Mil réis para pagar tudo lá em cima.
6 de janeiro — Dia dos Reis — O costume de cantar dos reis cai sempre mais em desuso e esta noite foi só uma turma que nos alegrou com sua canção.
De tarde tinha reunião no Caça e Tiro e eleição da diretoria. Eu estou alegre que eu posso transferir meu cargo de honra. Eleitos foram: para Presidente: P. Bauer, [10] Vice - Presidente: Galle,[11] Tesoureiro: Moldenhauer,[12] Secretário; E. Palumbo,[13] Procurador: Ângelo Correa. Participaram na eleição 27 sócios, o que aconteceu raras vezes.
7 de janeiro — Isto era uma noite abafada, como não aconteceu muitas vezes, graças a Deus! — M. Cunha aceitou o orçamento da cozinha, pelos menos ele falou que quer começar na semana que vem.
Da minha caixa saiu muito dinheiro esses dias: 150$000 cal, 350$000 tijolos e hoje a Bornhausen [14] um saldo de 43$000 para madeira e sobre isso e amanhã domingo e eu preciso de 150$000. Com isto a minha caixa está vazia e eu não sei de onde tirar o dinheiro para a viagem para Blumenau.
8 de janeiro — De Konder ganhei 600$000 e fica um saldo de 100$000. Mas também isto não chega para pagar as dívidas em Blumenau.
9 de janeiro Esta noite fizeram um arrombamento no negócio de M. Cunha. O ladrão foi surpreendido e só levou comestíveis e 35$000 em moedas. Já uma hora depois pegaram o ladrão e do dinheiro só faltaram 8$000. Eu falei com Palumbo sobre o pagamento, mas ele respondeu que não tem dinheiro mas logo dá. Sempre grande gritaria e quando devem pagar, são esta gente que fazem mais luxo os mais preguiçosos. M. Cunha não falou nada e pagou logo 2 Contos de Réis antes do começo do serviço, ainda que Palumbo naquele tempo disse: será que este tem dinheiro para construir? Eu fui precipitado e emprestei 300 Mil réis a A. Thieme. [15]
Sem que eu esperava Palumbo me deixou chamar e me deu por conta 1 Conto de Réis. Agora eu posso cumprir as minhas obrigações nos próximos 14 dias e pagar umas dívidas.
10 de janeiro — Amanhã quero viajar para Blumenau para por em ordem meus negócios lá. Samuel [16] vai junto porque ele vai levar seu filho para Salinger como aprendiz. Se o vapor sair cedo, como de costume, eu posso voltar com o vapor Blumenau quinta-feira. Se preciso, espero até sábado.
12 de janeiro — A viagem está terminada e peço a Deus, que tão breve eu não precise ir lá novamente. Apesar da boa companhia de Samuel, as duas viagens foram muito fastidiosas. Se eu não for forçado por negócios ou outros assuntos, ninguém vai me ver lá em cima. As despesas superaram meu orçamento, porque eu pensei de levar de volta alguma coisa dos meus 750 Mil réis, mas eu fiquei devendo ainda 300 Mil réis a Willi. A conta do médico que eu calculei em 300 Mil réis foi 500 Mil - réis. Hotel em vez de 300 Mil réis eram 440 Mil réis. Assim errei na minha conta por 300 Mil réis.
15 de janeiro — Domingo. Hoje é culto na igreja [17] e o novo Harmônio vai ser inaugurado. Fato é para nós um grande progresso, porque a comunidade é pequena e o canto destes poucos era pobre.
15 de janeiro — De manhã era fresquinho como no mês de Maio, mas de dia fez muito calor como pleno verão. Esperamos hoje de Blumenau a grade para o túmulo do Sr. Konder, então tem que ser colocada logo porque os serralheiros e pintores vem junto de Blumenau. Muitos homens de ofício agora têm falta de serviço, os demais carpinteiros e marceneiros estão sem trabalho. Eu ainda não tenho para me queixar, eu dou serviço para 4 marceneiros, 2 operários e 4 aprendizes. Por muito tempo eu não posso dar mais serviço para eles.
18 – de janeiro Uma esperança sobre serviço apareceu do Fontes, [18] que tem a intenção de derrubar sua casa velha e construir uma nova no mesmo tipo e material como aquela de M. Cunha. Grande pres sa não vai ter, porque ele precisa primeiro ver onde arranjar o dinheiro. Condição de antemão é, se no fim faltar-lhe dinheiro, ele me pode dar uma obrigação ou hipoteca. O Senhor Fontes é um dos mais seguros, ele é um homem de honra e eu vou aceitar a proposta dele se nós chegarmos a um acordo.
19 de janeiro — Ontem eu me senti tão bem e trabalhei junto no muro da cozinha de M. Cunha. Hoje ao meio dia eu estava tão cansado e perdi tanto o vigor que fiquei até com medo. Mas isto passou e de tarde eu estava bem melhor. Também dinheiro eu ganhei de Donato, assim que eu tenho cerca de 1:100$000 na minha caixa.
De noite às 8 horas tinha uma trovoada tão forte como raras vezes. Eu fui ligeiro e cobri o muro em baixo das calhas para a água não lavar o cimento dos tijolos.
20 de janeiro — São Sebastião – Como de costume perguntaram meus operários se eu quero que eles trabalhem. Eu disse que não, porque a experiência ensinou que ninguém vem ao serviço porque é dia santo e na igreja tem missa.
Nesta feia trovoada com muito vento de ontem, entrou chuva na repartição do Brandão e molhou totalmente todo o papel e dinheiro. A culpa deve ser da calha.
21 de janeiro — Nesta trovoada de anteontem entrou chuva em quase todas as casas. Como eu ouvi também choveu dentro da casa dos Konder. Ainda bem que ele não vive mais, porque ele me mandava tirar todo o telhado. Nas casas de Malburg, P. Bauer e outros, onde nunca entrou chuva, eles tinham de botar vasos em vários lugares. Apesar de tantas trovoadas não quer refrescar.
23 de janeiro — A parede do meio da casa de M. Cunha ficou horizontalmente rachada de que eu estranho muito. Isto não me aconteceu antes na minha vida inteira.
24 de janeiro – Outra vez um calor brasileiro e quem tem de ganhar a vida lá fora, não se pode invejar. Mas ainda melhor que frio, que se sente muito mais.
Com o projeto do Fontes, eu pensei ter tempo ainda, mas hoje tinha conselho de guerra na presença da senhora dele que deu a planta da divisão do interior da casa.
28 de janeiro — Um calor muito abafado. Às 2 horas veio uma trovoada com muita chuva. Nos nossos dias de velhos estamos ficando luxuriosos e sensíveis, pois os mosquitos nos obrigam a compra de um mosquiteiro.
29 de janeiro -- Uma manhã escura com chuva. Agora vem dia de festas a valer: carnaval, bolantinus, Sängerfest e quinta-feira Maria.
31 de janeiro -- Nenhum ano eu senti o calor e me senti tão fraco como estes últimos dias, apesar de já ter feito mais calor. Deve ser a idade avançada. Agora Fontes quer ainda mais uma planta, melhor, duas plantas da casa, uma com o corredor no meio e a outra com o corredor ao lado do negócio. Se não precisa ser muito certo, terá muito tempo e pensamentos.
Os “Kunstreiter” chegaram e querem dar 5 - 6 espetáculos. Para o carnaval a banda vem de Tijucas. Eu não estou contente porque eles não queriam a nossa banda. A de Tijucas não quer pagamento mas a comida e a hospedagem, custam 3 vezes mais do que a nossa banda que pediu 160 Mil réis. Mas para mim isto é sem interesse porque não vou assistir o baile.
3 de fevereiro -- Os “Kunstreiter” deram o primeiro espetáculo. Eu entreguei a Fontes o primeiro orçamento, 8 Contos e novecentos Réis, mas de certo ele perdeu o apetite, porque ele calculou com 5 - 6 Contos. — De noite o nosso pequeno Heini [19] teve um ataque para ficar com medo, mas ele melhorou depressa. Também a mãe [20] está melhor depois de aplicar umas compressas em cima da bexiga.
4 de fevereiro – Baile dos cantores na casa de Moldenhauer. A gente se sentia melhor de ficar em casa, em vez de suar em traje de rigor, mas as pessoas são tolas de uma vez. — O Fontes me disse que o preço do orçamento da casa não o assustou, mas que ia passar algum tempo até que ele vai começar. Ele quer primeiro juntar uns 4 - 5 Contos, vendendo uma sua máquina ou terrenos.
5 de fevereiro – Festa e baile passaram, só uns retardatários cantaram lá ainda às 6 horas da manhã de hoje. Tinha muita gente e estava bem divertido. Eu fui para casa à 1 hora da manhã. Durante a noite a mãe piorou e hoje ela tem ainda de ficar na cama. Eu despedi hoje João Fort e se Fontes vai demorar muito com a construção da casa, eu tenho que despedir ainda mais operários. Outro serviço não está em vista.
7 de fevereiro -- M. Cunha me pagou hoje 900 Mil réis sem ser chamado, agora eu posso começar o telhado do Palumbo antes de pedir dinheiro dele. Excepcionalmente e para agradar Moldenhauer nós fomos jogar bolão. Anteriormente eu não fazia isto, mas hoje em dia posso me permitir isto, que não acontece muitas vezes.
8 de fevereiro -- M. Cunha quer a calçada dele pronta antes do Carnaval e eu vou fazer o desejo dele se o tempo permitir. Eu também estive no circo e vi como um homem foi atirado de um canhão. Foi um trabalho bom. — Palumbo me pediu hoje de emprestar para ele 6 libras esterlinas da senhora von Borowski, ele quer pagar 10 % em ouro na aduaneira. Ela me entregou o dinheiro. Fontes disse que vai começar com a casa nos primeiros dias de março.
9 de fevereiro – Fechado, mas muito quente. Tomara que o tempo fique bom até acabar com a calçada. O telhado também precisa de tempo bom, mas com este pode-se melhor acabar e outra vez começar como numa calçada.
10 de fevereiro – O tempo é favorável para nós e pode ser que fique bom até a festa passar.
11 de fevereiro – Estalam os foguetes e as casas tremem, porque chegou a banda Galotti de Tijucas para o “Estrela do Oriente”, [21] para a glorificação do carnaval. A sociedade “Ironia” também contratou a banda Steffens (Legalistas) de lá. Esta chegou duas horas antes, também recebida com foguetes e barulho. — Às 4 horas veio uma trovoada, mas na calçada não pode mais causar danos. Em plena chuva veio uma ordem do comissário da polícia para fazer um túmulo no cemitério para um vagabundo que na estrada da Barra do Rio morreu. Eu mandei Louis logo começar o túmulo e pode a policia enterrá-lo lá.
12 de fevereiro -- Domingo de carnaval. – Hoje é um tumulto e uma correria, porque de tarde tem passeata. A banda Galotti tocou na igreja, mais ainda não se ouviu até meio dia. A passeata foi às 4 horas e todas duas sociedades fizeram o possível e tinham coisas bonitas. A maior pompa era um carro triunfal romano com dois cavalos baios beni naturais. Era uma verdadeira obra de mestre, ainda mais para gente que nunca viu e muito menos fizeram uma coisa igual. Quem foi o artista e o fabricante disso, não sei dizer. Em geral tudo era bonito e satisfatório especialmente para gente que não está acostumada de ver estas coisas.
13 de fevereiro -- A banda Galotti se movimentou agora mesmo para a Sociedade dos Atiradores para uma visita. Eu estava com vontade de ir junto, mas a pé neste calor, ida e volta é um sacrifício grande demais. Apesar disso incluem-se despesas — pelo menos 6 garrafas de cerveja — e isto me atrasa o bolão de segunda-feira. Brandão [22] falou hoje de terminar o seu armazém, começado há tempo. Pelo menos a expectativa de um pouco de serviço! De noite tinha baile no “Estrela” de Moldenhauer, mas eu fui deitar-me. Pontualmente às 10 horas começou o baile e às 11 horas ainda não tinha terminado a primeira quadrilha. A música entrou tão alto no nosso quarto. que era difícil adormecer. Até os ratos no nosso sótão ficaram inquietos e fizeram pulos como nunca, por causa deste barulho não acostumado. Diariamente me confronto com a ignorante opinião: dinheiro não dá felicidade. Como agora com V. Below. O sapateiro Cunha não quer dar mais dinheiro para ele antes de ele terminar o serviço até pelo menos a metade.
****
Observações:
[1] Manoel Cunha;
[2] Emílio Palumbo;
[3] Jornal “O Progresso”, situado na Rua Lauro Müller;
[4] Sociedade dos Atiradores;
[5] O filho Wilhelm Andreas, cujo apelido era Willi;
[6] Clube Guarani;
[7] Donato Luz;
[8] Manoel Cunha;
[9] Família de Marcos Konder;
[10] Paulo Bauer;
[11] Julio Galle;
[12] Otto Moldenhauer;
[13] Emílio Palumbo;
[14] João Bornhausen, pai do ex – Governador Irineu Bornhausen;
[15] Augusto Thieme;
[16] Samuel Heusi, patriarca da família Heusi em Itajaí;
[17] Comunidade Luterana de Itajaí;
[18] Manoel Fontes;
[19] Henrich Ehrlich, filho de Paulina Müller em seu 1º casamento, com Ernst Henrich Ehrlich;
[20] Carolina Müller, a esposa;
[21] Sociedade (Clube) Estrela do Oriente;
[22] Joca Brandão.
Fonte: Blumenau em Cadernos, Tomo 17, (2) 51-55, Fev. 1976.