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Imigração alemã para SC

A Imigração Alemã em Santa Catarina



A imigração alemã teve um papel relevante no processo de colonização de diversas regiões do sul do Brasil desde 1824, quando o governo imperial fundou a colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, a colonização alemã teve início, de fato, com o estabelecimento da Colônia de São Pedro de Alcântara, em área relativamente próxima à capital Desterro (Florianópolis), situada sobre a margem esquerda do rio Maruim, distrito da vila de São José. A sua fundação data do ano de 1829. Durante o ano de 1828 desembarcaram na Ilha de Santa Catarina, vindas nos brigues Marquês de Vianna e Luiza, 146 famílias, em número de 523 pessoas, e reunindo-se mais tarde 93 indivíduos que tinham sido praças dos batalhões dissolvidos no Rio de Janeiro, assim como 19 do Batalhão 27, também dissolvido nesta Província; pode-se contar ao todo 625 Alemães, que se destinaram à nova Colônia de São Pedro de Alcântara. De 146 famílias que se destinaram a formar a nova colônia, quatorze delas ficaram na cidade e seus arredores e por isso somente 132 datas foram demarcadas para igual número de famílias. Na mesma época, colonos alemães instalaram- se em Mafra, próximo à fronteira com o Paraná. Essas e outras iniciativas de colonização na primeira metade do século XIX não produziram os resultados desejados (a implementação da agricultura familiar e a ocupação de terras devolutas) uma vez que o número de imigrantes assentados era pouco significativo e nem todos permaneceram nas colônias. Em 1835, o governo provincial promoveu novo assentamento de algumas famílias alemãs egressas de São Pedro de Alcântara, desta vez em dois núcleos (Pocinho e Belchior) localizados no baixo rio Itajaí-açu (hoje município de Gaspar). Esta foi a primeira tentativa de colonização no Vale do Itajaí. Posteriormente, houve a fundação da Colônia Santa Isabel, onde houveram três remessas de imigrantes. A primeira delas, chegou a Desterro em 28 de dezembro de 1846, no bergantin “Vênus” com 114 pessoas; a segunda leva de imigrantes, aportou na sumaca "14 de Novembro”, em março de 1847, com 79 imigrantes; e a terceira na galeota belga “Jean de Lacquenghien”, com 64 imigrantes (13 famílias e 3 homens solteiros, todos protestantes). Estes últimos, segundo o jornal de bordo publicado em Antuérpia, no dia 12 de junho de 1847, destinavam-se à Província do Rio Grande do Sul, para onde, de fato, se dirigiram os outros 27 imigrantes, do total de 91, que vieram com a galeota belga.


A colonização do Vale do Itajaí começou propriamente em 1850, com a fundação da colônia do Dr. Hermann Blumenau, na confluência do ribeirão da Velha com o rio Itajaí-açu. Esse projeto, apesar das dificuldades encontradas por Blumenau para trazer imigrantes, deu impulso à colonização alemã na província de Santa Catarina. Uma outra colônia particular, a Colônia Dona Francisca (depois Joinville), surgiu em 1851 nas terras devolutas do noroeste de Santa Catarina recebidas como dote pela princesa D. Francisca, irmã de Pedro II, quando do seu casamento com o príncipe de Joinville. Para a implementação dessa colônia constituiu-se a Sociedade Colonizadora Hamburguesa, que destinou uma área de 46.582 hectares para assentamento de alemães, suíços e noruegueses. Quase uma década depois, em 1860, começou o povoamento do principal afluente do Itajaí-açu, com a fundação da colônia Itajaí (Brusque), administrada pelo estado; nesse mesmo ano, o governo imperial assumiu a administração da colônia de Blumenau.

A Colonização Alemã

(Por Leopoldo Petry, Especial para o Boletim Renner)

No dia 25 de julho comemorou-se a chegada ao Rio Grande do Sul dos primeiros imigrantes germânicos. Nesse dia, no ano de 1824, desembarcaram, às margens do rio dos Sinos, no lugar onde hoje se ergue a próspera cidade de São Leopoldo, os primeiros 38 colonos contratados na Alemanha pelo governo brasileiro para o cultivo das terras virgens que formam a zona conhecida ainda hoje pelo nome de “colônia alemã”. A essa primeira leva, vieram juntar-se, poucos dias após, mais cinco imigrantes e no dia, 06 de novembro do mesmo ano, esse grupo foi aumentado com a vinda de 15 famílias, compostas de 66 pessoas e 15 homens solteiros. Estes e outros que lhes seguiram nos anos seguintes foram sediados em 928 lotes, previamente demarcados.

Teve, assim, início a coloniza alemã em nosso Estado.

Os resultados desse movimento imigratório foram os mais auspiciosos para o nosso País. Atirando-se com vontade férrea ao árduo trabalho de transformar em terras produtivas a imensa mata virgem, lutando com inúmeras adversidades, vencendo inenarráveis dificuldades de toda ordem, os colonos alemães conseguiram, em poucos anos, superar as mais otimistas esperanças que seus amigos e favorecedores neles tinham depositado.

Já em 1832, num relatório apresentado ao Governo Imperial pelo Brigadeiro Manoel Carneiro da Silva Fontoura, que visitara uma picada em missão especial, lemos o seguinte: “É admirável o auge a que se tem elevado o aumento dos colonos, já na edificação de moradas, já nas grandes roças, plantações, criações, etc...”.

E, 18 anos após o início da colonização, em 12 de dezembro de 1842, escreve o valoroso Duque de Caxias:

“Estive ontem na Colônia de São Leopoldo e fiquei satisfeitíssimo de ver o estado desta. Esta colônia pacífica e industriosa abastece a capital da Província de todos os gêneros necessários à vida. Sua exportação mensal regula a 18 contos de réis. Os colonos reclamam ardentemente serem reconhecidos cidadãos brasileiros, conforme o trato com eles feito, que por cópia inclusa remeto”. (Alfredo de Toledo Costa: O Duque de Caxias).

Porém, não somente no terreno econômico se salientaram os colonos alemães; fundaram também escolas, organizaram suas comunidades religiosas, reuniram-se em sociedades para o cultivo de canto e das belas artes e isso tudo a expensas próprias, sem auxílio de quem quer que seja.

Quem estuda com atenção o assombroso desenvolvimento da Colônia constatará, a primeira vista, dois fatores importantes nesses auspiciosos resultados: primeiro o amor e a dedicação ao trabalho do colono alemão e sua extraordinária tenacidade; segundo, a excelência do sistema de colonização intentado pelo Governo Brasileiro, concedendo a cada família de imigrantes um lote de terras como propriedade intangível.

E se foi justamente esse segundo fator, o que mais contribuiu para o bom êxito da colonização, porquanto o colono alemão é por índole dado a um grande apego à propriedade: cultiva-a, procura torná-la confortável, cerca sua casa de jardins, hortas e pomares, considera-a enfim, como seu paraíso terrestre, em que procura viver, descansar e gozar a vida em companhia da esposa e dos filhos, de acordo com suas modestas aspirações.

E se hoje contemplamos admirados a prosperidade de toda a região colonial e nos lembrarmos que tudo é devido ao esforço do imigrante e de seus descendentes, que construíram em nossa Pátria um grandioso edifício de progresso e prosperidade, é de justiça prestar no dia 25 de julho a homenagem de nossa admiração a esses pioneiros anônimos que com seu trabalho inteligente conseguiram tão magníficos resultados.

* Boletim Renner, Página 236, Notas e Artigos Diversos,sem data.



A Colonização Alemã no Espírito Santo

A Fundação da Colônia Santa Isabel

Excerto de: "A colonização alemã no Espírito Santo". [Do original alemão Die deutschen kolonisten im brasilianischen staate Espírito Santo, Verlag von Duncker & Humblot — München und Leipzig, 1915. Tradução de Reginaldo Sant'Ana publicada em Separata dos nºs 68-70 do Boletim Geográfico, IBGE, correspondentes aos meses de novembro e dezembro de 1948 e janeiro de 1949, Rio de Janeiro, Serviço Gráfico do IBGE, 1949.]

As colônias alemãs se espraiam pelo território do estado, partindo do rio Jucu e do Santa Maria da Vitória.

Primeiramente se fundou, em 1847, à margem do rio Jucu, cerca de e 30 quilômetros distante da costa, a colônia de Santa Isabel (Isabel era o nome da herdeira presuntiva do trono). Os primeiros imigrantes que lá chegaram, em número de 163, formando 38 famílias, eram originários do Reno, das elevações do Hunsruck. Mais tarde, ajuntou-se-lhes um contingente do Hesse do Reno.

Foram, após a chegada no Rio, transportados, por via marítima, para Vitória. Ficaram aí, algum tempo, e foram pagos para limpar e calçar a praça fronteira ao palácio presidencial. Daí foram levados a Viana, lugarejo situado a meio caminho do local onde iriam se radicar. De 1813 a 1818, formara-se aí uma colônia de famílias açorianas, a qual, após dificuldades iniciais, progrediu muito e viria a ser, para os imigrantes alemães, o povoamento mais próximo.

Finalmente, de Viana, rumaram os teutos — os homens a pé, as mulheres e crianças em canoas pelo Braço do Sul para o seu lugar de destino, onde confluem o Jucu e o Braço do Sul — "Lá encontraram, — narra o pastor Urban — "algumas dúzias de botocudos, com mulheres, crianças e o inspetor que servia de intérprete. Os índios tinham feito um roçado na mata e construído choças... Quando os alemães, trazendo, às costas, colchões, trem de cozinha, instrumentos de trabalho e vitualhas, quiseram tomar conta dos respectivos terrenos, foram surpreendidos com a notícia de que só a metade deles fora demarcada e de que não havia nem caminho nem vereda que rompesse a espessa mata que cobria os lotes. Na demarcação das terras somente os limites extremos foram assinalados por meio de uma picada... Os colonos tinham de abrir veredas através de suas terras, até alcançar um riacho, e, ao mesmo tempo, estabelecer ligação entre os lotes... Pela picada aberta, transportavam, às costas, para a nova moradia, vitualhas e instrumentos de trabalho. Mal começaram a tornar o lugar habitável, quando receberam ordem de Vitória, de voltarem para as cabanas de emergência, de Viana, onde se tinham abrigado antes. Os índios tinham fugido para a floresta, e o governo temia que atacassem os colonos... Os soldados da polícia deviam, antes, aprisionar os índios e distribuí-los por diversos lugares... Os alemães ficaram, durante algum tempo, sob proteção armada. Os selvagens permaneceram nas proximidades das terras dos colonos e, freqüentes vezes, assustavam-nos; mas, pouco a pouco, foram-se retirando para o interior, deixando os alemães em paz".

Os imigrantes eram naturais de região montanhosa e estavam acostumados, de casa, aos árduos trabalhos de lavrador e jornaleiro, o que os qualificava,excelentemente, para a tarefa colonizadora nas florestas virgens brasileiras. Demais, o clima da terra não lhes era desfavorável. Contudo, no primeiro ano, foram acometidos de graves doenças. A alimentação que lhes era estranha (em regra, não tinham outra coisa para comer além do feijão preto e farinha de mandioca, segundo fui informado), as habitações precárias, a praga de insetos, em particular, que, antes da derrubada da mata, era muito grande, — tudo isso pôs de cama a maioria dos 163 imigrantes, e ceifou nove deles, conforme verifiquei nos assentamentos da igreja paroquial de Campinho. Tifo, malária e febre amarela são dados como causa mortis. Esse período de sofrimentos, porém, passou rapidamente, em virtude da ação enérgica do Governo, que lhes proporcionou assistência médica, remédios e alimentos.

No princípio, pelo menos, muito foi feito pelo estado, a favor dos colonos; dirigia, então, a província, um presidente que os olhava com simpatia. Cada família recebeu, no começo, um lote de 120 000 braças quadradas, ‘ ou seja mais de 50 ha. Vários receberam, “mediante pedidos, subterfúgios, heranças simula das e outros recursos dessa espécie, 2 ou 3 lotes, dos quais, naturalmente, só parte muito reduzida podiam cultivar. Os sítios ficaram, assim demasiadamente grandes, o que, em face das condições de. transportes, não era desejável.

Reconhecendo isso, o Governo ordenou que só se outorgassem, a futuros pretendentes, lotes de 62 500 braças quadradas (25 a 30 ha), ao preço de 93% mil réis, cada um. O imigrante não era, entretanto, obrigado a pagar essa quantia, imediatamente .

Os colonos receberam, além de terras, ajuda financeira que, inicialmente, era demasiada, “desviando-os para a vagabundagem e para a dissipação, — razão por que seu valor foi diminuído, posteriormente, no fim do decênio de 1850; Então, dava-se a cada família, conforme o número de pessoas, de 24 a 59 mil réis por mês.

Nos anos de 1846 a 1863, gastou o Governo, ao todo, com a colônia Santa Isabel, a importância de 261 000 mil réis.

Apesar disso, os colonos sofreram fome, de vez em quando. Os sérios obstáculos que se antepunham às vendas e aos aprovisionamentos, explicam o fato, parcialmente. A população católica de Viana, em virtude de inimizade confessional, ou por outro motivo, não queria vender aos colonos qualquer espécie de alimentos, nem comprar-lhes os produtos. A administração inicial, bastante falha, era, também, muito culpada dessa situação de penúria. Os negócios da colônia foram confiados a um capuchinho austríaco que não estava à altura da missão e que, ao deixar o lugar, passou-o, com o consentimento do Governo, a um colono,’ totalmente incapaz para o cargo. Talvez houvesse, no meio, prevaricações de funcionários.

As coisas só melhoraram, em 1858, quando Adalberto Jahn, ex-oficial prussiano, assumiu o cargo de diretor da colônia; no exercício de suas funções, desenvolve.u uma atividade muito fecunda.

Em 1860, Tschudi achou os colonos numa situação remediada. Disse a respeito: “Os colonos antigos alcançaram um nível de vida confortável, em que se sentem livres de preocupações, e à maioria cabe o elogio de ativos e corretos. Formulou-se um julgamento menos favorável relativamente a uma porção dos chegados mais tarde, entre os quais havia muitos preguiçosos e beberrões”.

No fim de 1860, a população, em virtude de imigração e crescimento natural, elevou-se a 628 pessoas:
Alemães (entre os quais 174 prussianos) 410
Suíços 8
Franceses 2
Sardos 24
Brasileiros (filhos dos colonos nascidos no Brasil) 184
Total 628

No fim de 1862 existiam 801 pessoas, sendo 424 masculinas e 377 femininas Em 1862, foram colhidas 10.000 arrobas (150.000 kg) de café.

Santa Isabel emancipou-se em 1865: deixou de se subordinar a um diretor de colônia, ficando sob administração municipal.


Referências:

* DESCHAMPS, Osvaldo;Estradas da vida, história de um ramo da família Deschamps, edição do autor, São Pedro de Alcântara, 2001.
* DESCHAMPS, Osvaldo; Memórias da nossa terra e nossa gente, edição do autor, São Pedro de Alcântara, 2005;
* HUNSCHE, Carlos H; O biênio 1824/1825 da imigração e colonização alemã no Rio Grande do Sul (Província de São Pedro), Ed. A Nação, Porto Alegre, 1975;
* HUNSCHE, Carlos H; O ano 1826 da imigração e colonização alemã no Rio Grande do Sul (Província de São Pedro), Ed. Metrópole, Porto Alegre, 1977;
* HUNSCHE, Carlos H. e Astolfi, Maria; O Quadriênio 1827-1830 da imigração e Colonização alemã no Rio Grande do Sul (Província de São Pedro), G&W Artes Gráficas, Porto Alegre, 2004;
* JOCHEM, Toni Vidal; Pouso dos Imigrantes. Florianópolis : Papa-Livro, 1992.
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* JOCHEM, Toni Vidal; A epopéia de uma imigração. Águas Mornas, SC : Ed. do Autor, 1997.
* JOCHEM, Toni Vidal;São Pedro de Alcântara, 1824 - 1999, Aspectos de sua história.
* LEMOS, Juvêncio Saldanha: Os mercenários do Imperador, Livraria Palmarinca, Porto Alegre, 1993;
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* PHILIPPI, Aderbal João; São Pedro de Alcântara - A Primeira Colônia Alemã de Santa Catarina. Florianópolis: Ed. do Autor, 1995.
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* SCHMITT, Elzeário; A Primeira Comunidade Alemã em Santa Catarina. Blumenau : Fundação "Casa Dr. Blumenau", 1974.
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* SEYFERTH, Giralda, A colonização alemã no Vale de Itajaí-Mirim: um estudo de desenvolvimento econômico, Ed. Movimento, SAB,Porto Alegre,1974;
* WAGEMANN, Ernst. A colonização alemã no Espírito Santo. [Do original alemão Die deutschen kolonisten im brasilianischen staate Espírito Santo, Verlag von Duncker & Humblot — München und Leipzig, 1915. Tradução de Reginaldo Sant'Ana publicada em Separata dos nºs 68-70 do Boletim Geográfico, IBGE, correspondentes aos meses de novembro e dezembro de 1948 e janeiro de 1949, Rio de Janeiro, Serviço Gráfico do IBGE, 1949.]



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